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Uma geração em busca de propósito

Uma geração em busca de propósito

Eles estão nos grupos de jovens, nos corais, nas ações sociais, nos momentos de oração. Cantam, servem, acolhem, assumem responsabilidades. E são cada vez mais. Em Abaeté, líderes de diferentes religiões percebem crescer o interesse e o envolvimento dos jovens com a fé e a espiritualidade.

Em meio a tantas vozes, escolhas e caminhos, essa geração continua procurando respostas para perguntas que nenhuma tela consegue responder: Quem sou eu? Onde pertenço? Em que acreditar? Para onde estou indo?

Em comunidades católicas, evangélicas, espíritas e umbandistas, jovens chegam pela fé que veio de casa, pelo convite de um amigo, pela dor ou simplesmente pelo desejo de encontrar sentido. E descobrem acolhimento, amizade, propósito e pertencimento.

Enquanto eles se aproximam, as próprias comunidades aprendem a ouvi-los. Sem perder suas raízes, renovam linguagens e abrem espaço para uma juventude que não quer apenas assistir à fé, mas vivê-la, servir e fazer a diferença.

Nas próximas páginas, crenças e histórias distintas se encontram em algo profundamente humano: a busca por um lugar para pertencer, uma esperança para acreditar e uma razão para seguir.

Quando o jovem encontra o seu lugar

Em Abaeté, o EJC tem aproximado uma nova geração da Igreja Católica e transformado jovens que chegam para viver um encontro em protagonistas da comunidade

Talvez o sinal mais evidente de que algo mudou não esteja apenas nos bancos ocupados por jovens durante as celebrações. Está depois delas. Na catequese, nos corais, na comunicação, na liturgia, nos ministérios e nas ações sociais. Em Abaeté, uma geração que encontrou na Igreja espaço para ser acolhida começa também a descobrir que pode ajudar a construí-la.

É esse movimento que chama a atenção do Padre Matheus Araújo, de 26 anos. Ele dedicou seu Trabalho de Conclusão de Curso em Teologia ao tema “A alegria do Evangelho para a juventude” e acompanha de perto a força que os grupos de jovens vêm ganhando na comunidade católica.

Entre eles, destaca-se o Encontro de Jovens com Cristo (EJC). “Vejo muitos jovens dizendo que antes viviam afastados da Igreja, sentiam-se sozinhos ou sem direção. Hoje participam da comunidade, fazem amizades e encontram um propósito”, conta Padre Matheus.

E essa participação vai além das celebrações. Os jovens visitam pessoas necessitadas, participam de ações solidárias e se envolvem nas diferentes atividades das paróquias. “A missão deles é acolher a todos”, ressalta o sacerdote.

Uma porta que se abriu

Netinho Vilela acompanhou essa transformação desde o início. Segundo ele, havia um desejo antigo de criar, em Abaeté, um movimento que aproximasse a juventude da Igreja e permitisse aos jovens se sentirem parte dela. “Queríamos um espaço onde eles pudessem se sentir acolhidos, pertencentes e protagonistas da própria caminhada de fé”, explica Netinho.

Ele participou de um EJC em outra cidade para conhecer a experiência e ajudar a trazê-la para Abaeté. Depois, esteve à frente do movimento durante dois anos e, ao lado de Karine Barbosa, coordenou o primeiro encontro realizado na cidade. “Entregamos nosso tempo, nossos dons e nossa vida para sermos instrumentos da graça de Deus e alcançarmos outros jovens”, recorda.

O movimento cresceu. E, para ele, os maiores frutos aparecem justamente depois que o encontro termina. Muitos jovens permaneceram e passaram a servir. Tornaram-se ministros extraordinários da Eucaristia, acólitos, catequistas, integrantes da PASCOM, coordenadores de comunidades, membros de corais e equipes de liturgia. “São jovens que descobriram que a fé não termina no encontro, mas nos impulsiona a servir”, destaca Netinho.

Essa transformação também chega às famílias. Pais, mães e avós colaboram com os encontros, preparam alimentos, participam de momentos de oração e acompanham mais de perto a caminhada dos filhos. “Isso fortalece não apenas os jovens, mas toda a família”, observa Padre Matheus.

Um jovem convida outro, que aproxima um amigo, que envolve uma família. Aos poucos, a experiência individual ganha dimensão comunitária. Em uma geração permanentemente conectada, mas que também convive com solidão, ansiedade e incertezas, a Igreja oferece algo essencial: presença.

Para Netinho, existe uma “sede de Deus” no coração da juventude, mas é preciso acolhê-la. “O jovem precisa ser acolhido, ouvido e acompanhado. Cabe a nós caminhar com ele, ajudá-lo a descobrir a beleza da fé e permitir que essa experiência com Deus transforme não somente a sua vida, mas também sua família e toda a comunidade”, afirma.

Para Netinho, talvez seja esse um dos maiores frutos do EJC em Abaeté: o jovem chega procurando seu lugar e descobre que também pode fazer a diferença. Deixa de ser apenas aquele que chega. Passa a ser aquele que fica, serve e ajuda a construir.

Uma fé pra viver lá fora

Entre louvor, acolhimento e novas formas de comunicação, igrejas evangélicas veem crescer a presença de jovens que buscam pertencimento, propósito e uma fé conectada à vida

Eles cresceram cercados por telas, redes sociais e uma quantidade quase infinita de informações. Mas, justamente em meio a tantas possibilidades de conexão, muitos jovens têm procurado algo que não se encontra apenas no mundo digital: pertencimento, relações verdadeiras e um sentido para a própria caminhada.

Nas igrejas evangélicas, essa busca tem se refletido em uma presença cada vez maior da juventude. Para o pastor William Machado, da Igreja Batista Cristo Vive, o movimento é perceptível e vem acompanhado de uma transformação na própria maneira como as igrejas se comunicam. “Os jovens estão chegando e, graças a Deus, a igreja também está se reposicionando, até na forma de pregar”, afirma o pastor.

Segundo ele, durante muito tempo o excesso de tradicionalismo dificultou essa aproximação. Hoje, sem abandonar os princípios da fé, muitas comunidades procuram criar ambientes mais acolhedores e utilizar uma linguagem capaz de conversar com as novas gerações.

E os próprios jovens também mudaram o que esperam encontrar. “Eles estão cansados daquela coisa apenas do rito, sem essência. Os jovens procuram uma experiência real com Deus”, explica William.

Conectados também pela fé

Curiosamente, a mesma tecnologia tantas vezes associada ao distanciamento das relações também tem ajudado a aproximar jovens da espiritualidade. Louvores, pregações e conteúdos cristãos fazem parte do cotidiano nas redes sociais. A música, especialmente, tornou-se uma importante ponte.

Para o pastor William, porém, existe outro elemento ainda mais importante: o sentimento de pertencimento. Em vez de exigir que todos tenham o mesmo estilo, as igrejas vêm aprendendo a acolher diferentes perfis dentro de uma mesma comunidade. “Não há necessidade de todo mundo ser igual. Com estilos diferentes, podemos ser um povo forte”, destaca.

É nesse ambiente que muitos encontram amizade, acolhimento e espaço para participar.

Não basta estar dentro da igreja

Para Ênio Eduardo, coordenador do grupo Cristo Vive Teen, da Igreja Batista Cristo Vive, acompanhar essa movimentação desperta alegria, mas também responsabilidade. “O jovem não quer apenas ocupar um espaço dentro da igreja; ele quer encontrar sentido, propósito e respostas para a vida”, afirma.

Para ele, quando existe diálogo e oportunidade de participação, o jovem percebe que não está ali apenas para assistir. Ele também pode contribuir, assumir responsabilidades e ajudar a construir a comunidade da qual faz parte.

Mas o verdadeiro desafio começa quando ele sai pela porta da igreja. “Nosso papel não é simplesmente trazer o jovem para dentro da igreja, mas ajudá-lo a desenvolver uma fé que consiga viver também fora dela: na família, nos estudos, no trabalho e nas suas escolhas”, explica o coordenador.

É uma ideia que transforma participação em compromisso. A fé deixa de estar restrita ao culto e passa a orientar relacionamentos, decisões e projetos de vida.

Entre os desafios e o acolhimento

Pastor William observa que essa geração também chega carregando dores muito próprias de seu tempo: ansiedade, crises de identidade, comparação constante e isolamento.

Diante disso, acredita que a resposta da igreja precisa passar pelo contato humano. “Não basta apenas apontar o caminho. Precisamos dizer: ‘Esse é o caminho. Venha caminhar conosco’”, ressalta.

Ênio encontra nesse acompanhamento uma das maiores alegrias de sua própria experiência como líder. “Tem sido muito edificante. A cada novo dia aparecem novos desafios, mas tenho visto o Senhor se revelar presente em cada etapa”, conta. Para ele, a missão segue acompanhada de motivação e disposição para servir.

Ao citar a orientação bíblica de que ninguém deve desprezar alguém por ser jovem, Ênio reforça uma convicção: juventude não significa falta de relevância dentro da fé. Pelo contrário. Quando encontra espaço, o jovem participa, lidera, influencia outros jovens e leva aquilo que acredita para além das paredes da igreja.

Talvez esteja justamente aí a força desse movimento. Em uma geração que procura seu lugar, a fé oferece não apenas um espaço para chegar, mas também razões para seguir. Porque, para esses jovens, fazer parte da igreja é só o começo. O desafio é levar essa fé para a vida.

Entre a dor e a esperança

Como a Umbanda tem atraído jovens em busca de acolhimento, propósito e transformação

Durante muito tempo, a Umbanda foi vista como uma religião praticada principalmente por adultos e idosos. Em Abaeté, porém, essa realidade vem mudando. Na Casa de Caridade Cruzeiro Divino, a presença dos jovens é cada vez maior, revelando uma busca por espiritualidade, pertencimento e sentido em meio a desafios emocionais.

Segundo João Paulo de Mesquita, o Pai João de Obaluaê, dirigente da casa, muitos jovens chegam enfrentando problemas como vícios, depressão e ansiedade. “Os jovens estão buscando uma saída para esses conflitos. A religião acaba oferecendo um caminho de transformação”, afirma.

Atualmente, a casa reúne cerca de 80 médiuns, dos quais aproximadamente 60% são jovens. Para Pai João, o interesse também cresce por meio da indicação entre os próprios frequentadores. “É comum um jovem receber ajuda e depois convidar um amigo. A pessoa percebe a mudança na vida do outro e quer conhecer também”, explica.

A trajetória do dirigente também começou cedo. Ele iniciou sua caminhada espiritual aos 16 anos e, apenas um ano depois, recebeu a missão de ajudar a conduzir uma casa religiosa. “Era uma responsabilidade muito grande. Meu irmão tinha 19 anos e eu tinha 17. Estávamos orientando pessoas muito mais velhas do que nós. Mas quando a missão chega, a gente precisa abraçá-la.”

Quando a fé salva vidas

A história da estudante de Medicina Veterinária Caroline Emanuele Rodrigues Santos, de 19 anos, mostra como a espiritualidade pode representar um recomeço. Criada na tradição católica, Caroline perdeu o pai aos 13 anos, depois de enfrentar situações familiares difíceis. A dor desencadeou uma profunda depressão. “Eu cheguei a pensar em desistir da vida. Tive tentativas de suicídio e não conseguia enxergar uma saída”, relata.

O ponto de virada aconteceu quando ela participou de uma palestra sobre suicídio e luto promovida por integrantes da Casa de Caridade Cruzeiro Divino. “Eu me senti tocada. Foi a primeira vez que senti esperança depois de muito tempo”, lembra.

Pouco depois, Caroline visitou a casa e recebeu atendimento espiritual de um Preto-Velho. “Ele segurou minha mão e disse que eu não estava sozinha. Aquela conversa mudou tudo. Aprendi a lidar com a dor e encontrei forças para continuar”, afirma.

Hoje, ela participa dos trabalhos mediúnicos e ajuda pessoas que enfrentam dificuldades semelhantes. “Quando vejo alguém sofrendo como eu sofri, encontro forças para continuar. Se minha vida mudou, a de outras pessoas também pode mudar”, declara.

Juventude, acolhimento e propósito

Para Pai João, o sentimento de pertencimento é uma das razões que explicam a permanência dos jovens na Umbanda. “Muitas pessoas chegam sozinhas. Encontram amizade, acolhimento e percebem que não precisam enfrentar tudo sem apoio”, destaca.

Caroline concorda e conta que alguns amigos passaram a frequentar a casa depois de observarem sua transformação. “Um amigo ajuda o outro. As pessoas chegam sem esperança e começam a perceber que existe um caminho”, diz.

Os jovens participam dos rituais, auxiliam nos atendimentos espirituais e colaboram nas ações de acolhimento. Segundo Pai João, a convivência entre gerações fortalece o trabalho. “Os mais velhos trazem experiência e sabedoria. Os jovens trazem força, energia e disposição”, afirma.

Quebrando preconceitos

Apesar do crescimento, o preconceito ainda faz parte da realidade de muitos praticantes da Umbanda. Para Caroline, o conhecimento é uma das principais formas de combater a intolerância. “As pessoas têm medo daquilo que não conhecem. Muitas vezes, não é maldade, é falta de informação. Conhecer ajuda a respeitar”, explica.

Ela admite que também carregava preconceitos antes de conhecer a religião. “Quando você entende o trabalho realizado, percebe que existe muito acolhimento, fé e vontade de ajudar o próximo”, afirma.

Pai João também defende a espiritualidade como instrumento de transformação. “Todo ser humano tem a oportunidade de recomeçar. Quando é vivida da forma correta, a espiritualidade ajuda as pessoas a enxergarem que ainda existe esperança”, finaliza.

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