A fotografia entrou na vida de Marcus Vinicius como terapia e tornou-se propósito. No projeto Retratos sem Fronteiras, ele eterniza histórias de pessoas comuns e, através delas, também deixa a sua.

Marcus tem medo de ser esquecido. Demorou algum tempo até que ele próprio entendesse isso. A descoberta não veio exatamente em uma sessão de terapia, mas nas reflexões de quem convive há muitos anos com a depressão e a ansiedade. “Eu tenho muito medo de não ser lembrado”, revela.
Talvez seja justamente por isso que tenha escolhido dedicar a vida a fazer o contrário com os outros: lembrar. Lembrar de quem trabalhou uma vida inteira sem nunca ter dado entrevista. De quem guarda histórias que não estão nos livros. De pessoas que sempre fizeram parte da paisagem de uma cidade, mas quase nunca estiveram no centro do enquadramento. Foi desse olhar que nasceu o Retratos sem Fronteiras, projeto criado por Marcus Vinicius em 2023 e que hoje leva histórias de pessoas comuns a milhões de espectadores. Mas, antes de se tornar projeto, a fotografia foi abrigo. Virou terapia.


Quando a câmera virou terapia
Nascido em João Pinheiro e criado em Martinho Campos, Marcus já percorreu muitos caminhos. Foi servidor público, professor de inglês, formou-se engenheiro ambiental e sanitarista e tornou-se empresário do setor de engenharia. O trabalho o levava constantemente a São Paulo e a viagens pelo Brasil e pelo exterior. grafar. “Quando senti a potência, o que a fotografia era capaz de fazer, minha cabeça mudou completamente”, recorda. Quando a filha tinha apenas sete dias, precisou passar 15 dias na Alemanha. As ausências foram se acumulando até que, certo dia, em São Paulo, Marcus simplesmente não conseguiu sair da cama para trabalhar. Ele já tratava depressão e ansiedade desde os 16 anos. Foi nessa fase que comprou de uma amiga uma câmera e três lentes e chamou um professor para ensiná-lo a fotografia. “Quando senti a potência, o que a fotografia era capaz de fazer, minha cabeça mudou completamente”, recorda.
Começou a fotografar tudo. Em 2016, deixou o serviço público, vendeu posteriormente sua participação na empresa de engenharia e passou a viver exclusivamente da fotografia. Vieram casamentos, famílias, formaturas, trabalhos comerciais, retratos e premiações. Hoje, soma cerca de 200 fotografias premiadas e já teve trabalho exposto em uma galeria na Escócia. Mas foi longe das premiações que encontrou o sentido mais profundo de seu trabalho.
Em janeiro de 2023, durante a cobertura de uma festa em Quartel Geral, Marcus viu um senhor negro, de barba branca, boina, cachimbo e bengala. Pediu para fotografá-lo e, depois, ouviu um pouco da história dele e da irmã. O vídeo teve milhares de visualizações e despertou uma ideia: criar algo dedicado às pessoas que estão por toda parte, mas raramente são ouvidas. Nascia o Retratos sem Fronteiras. Desde então, cerca de 200 personagens já passaram por suas lentes e entrevistas. O projeto conquistou centenas de milhares de seguidores, acumula milhões de visualizações e teve desdobramentos em leis de incentivo, curta-metragem e outras produções documentais.
O crescimento também é dividido com Julinho Alves, sócio que Marcus faz questão de colocar no centro dessa trajetória. Julinho grava, edita, participa da gestão e, segundo Marcus, tem um olhar especial para encontrar a essência de cada história. “Ele tem os mesmos 50% do sucesso que o Retratos tem hoje”, ressalta.



Quando a fotografia vira memória
Ao final de cada entrevista, Marcus faz uma sessão de retratos. Depois, imprime as fotografias e volta para entregá-las de presente aos personagens. Muitos deles são idosos. E alguns já partiram. Foi então que o fotógrafo percebeu que aqueles vídeos e imagens poderiam se tornar muito mais do que publicações nas redes sociais. Para algumas famílias, seriam a ma de cuidar de si. Anos depois, encontrou atrás dela muito mais: uma razão para levantar, viajar, conversar, ouvir e continuar. “A fotografia me cura todos os dias. E a maior dose que eu já recebi até hoje foi o Retratos sem Fronteiras”, afirma.
Hoje, seu desejo é continuar o projeto e eternizar o máximo de histórias que puder. E matéria-prima, acredita, nunca vai faltar. São pessoas. Pessoas que talvez nunca tenham sido entrevistadas, que não se considerem importantes o suficiente para um documentário, mas carregam lembranças que desaparecerão se ninguém parar para ouvi-las. “Todas têm alguma coisa para falar. A gente é que não ouve. A gente é que não escuta”, reflete. oportunidade de rever um rosto, ouvir novamente uma voz e guardar uma história que, sem aquele registro, talvez desaparecesse. “Talvez uma das únicas lembranças que tenham dessas pessoas sejam as histórias que a gente gravou, os episódios do Retratos, os próprios retratos”, conta. É nesse ponto que a história do projeto se encontra com a história de quem o criou. “Uma forma que eu achei de não ser esquecido não é contando a minha própria história, mas contando a história dos outros”, confessa.
Marcus entendeu que também existe um pouco dele em cada imagem. Porque um retrato não mostra apenas quem está diante da câmera. Carrega também a sensibilidade de quem decidiu parar e enxergar aquela pessoa. “Às vezes tem um senhorzinho ali, negro, agachado, mas não é ele que está ali somente. Sou eu também, no meu olhar”, explica. Quando comprou sua primeira câmera, Marcus procurava uma forTalvez seja essa a essência do Retratos sem Fronteiras: um homem que tinha medo de ser esquecido decidiu oferecer memória aos outros. E, enquanto eterniza cada rosto que encontra pelo caminho, vai deixando também o seu. Não necessariamente diante da câmera. Mas para sempre atrás dela.

