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Panela Preta

Panela Preta
— Mãe, o porco chegou!
Prepara a lata de carne e de banha.
Amola as facas.
Vamos todos para o quintal.

Em minha visão de criança, as escadas pareciam enormes.
E a panela preta então…
Fazia minha imaginação correr solta!

Papai amola as facas,
despela o porco com água fervendo —
fervendo na panela preta,
pois o fogo já ardia há um tempão.

Ele abre o porco e explica:
— Tem o jeito certo de abrir.
Contorna o rabo do bicho.
E, de repente, o porco se divide em duas bandas.

Mamãe corre e pega a bacia.
É para colocar as tripas. Ela observa:
— As tripas estão boas!

A carne para fazer linguiça é separada.
A irmã mais velha pica, picadinho, a carne macia.
Ela é caprichosa —
e mamãe sabe que, com ela, a linguiça vai ficar uma beleza.

Cada um pega uma faca.
É pra picar o toucinho…
O toucinho cai na panela preta como flocos de algodão,
e a panela chia,
e o toucinho frita.

A colher de pau roda o toucinho.
Está quase tudo prontinho.

É preciso buscar mais bacias.
Mamãe grita para a filha caçula:
— Busca as bacias lá em cima!

Olho para as escadas e desejo que elas encolham.
Mas nada acontece.
Subo de novo.
Filha caçula é assim:
faz carreirinho pra todo mundo.

Já está anoitecendo.
O toucinho frito vira torresmo,
a gordura quente vai para a lata,
a carne macia, cozida, desfia em pedaços que dão água na boca.
É mergulhada na gordura — é para não perder.

Todos na casa já sabem:
primeiro comemos o torresmo,
depois a pele de porco cozida.
E as filhas da Helena torcendo
pra que acabe logo o torresmo e as peles —
estávamos doidas para comer carne de osso
e depois a carne desfiada.

E era assim.

Hoje, a panela preta, cansada, já velha, enfeita minha sala.
Eu olho pra ela, fecho os olhos —
e tudo volta à memória.
Sinto saudade do cheiro de toucinho fritando,
da carne macia que tem gosto de família reunida
em torno da panela preta,
das risadas…
e até dos resmungos.

Sinto saudades.
Dos tempos que eram meus.
Dos sonhos que se foram.
Do Frederico no quintal.
Da Luzia colocando roupa no varal.
De como eram as irmãs.
Papai, mamãe…
e eu

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