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Uma reflexão sobre a criança hoje

Por Rosa Maria da Cunha, psicóloga

Falar sobre crianças hoje é bem mais difícil do que há algumas décadas. Em outros tempos, a ideia de “infância” nem existia — a criança era tratada como um pequeno adulto. Agora temos a chamada geração Alpha, nascida entre 2010 e 2025. Crescendo em meio a telas e tecnologias, as crianças com idades entre um e 15 anos também são conhecidas como a geração TikTok, que, como o aplicativo, funcionam num tempo onde tudo tem que ser explicado a elas em menos de um minuto. Pela primeira vez na história, pesquisas mostram que apresentam um QI médio ligeiramente inferior ao dos pais. São extremamente dependentes de dispositivos tecnológicos, e muitos pais dos Alphas utilizam esses aparelhos como verdadeiras babás.

Pesquisas apontam que o uso precoce e excessivo da internet tem alterado a forma como as crianças das duas últimas gerações (Z e Alpha) se desenvolvem. Elas são expostas desde cedo a conteúdos feitos para atrair e prender a atenção, muitas vezes sem critério e sem pausa. Isso pode causar sobrecarga sensorial, falta de concentração e cansaço mental. O tempo de tela excessivo também interfere no sono, no aprendizado e no equilíbrio emocional.

Em muitos casos, a exposição nas redes sociais tem transformado a infância em vitrine. Canais e perfis de crianças com milhões de visualizações se multiplicam, e parte desse conteúdo é produzido por adultos que exploram a imagem dos filhos em busca de fama e renda. Mesmo quando não há má intenção, o resultado pode ser prejudicial, pois retira da criança o direito à privacidade e à espontaneidade.

Outro fenômeno preocupante é a substituição do brincar livre pelas telas. Antes, a imaginação se manifestava nas ruas, nos quintais, nas brincadeiras coletivas. Hoje, muitos preferem o isolamento diante do celular. A leitura, que ativa o cérebro de forma criativa e profunda, tem sido trocada por vídeos rápidos e conteúdos superficiais. Esse tipo de estímulo contínuo reduz a paciência, o foco e até a capacidade de sentir prazer em atividades simples.

O ambiente digital, apesar de oferecer informações valiosas, é projetado para reter o usuário. Os algoritmos “adivinham” nossos gostos e prolongam o tempo de uso, criando dependência e alterando o sistema de recompensa do cérebro. Isso explica por que muitas crianças demonstram irritação e ansiedade quando ficam sem o aparelho. O resultado pode ser uma infância mais solitária, com menos empatia e mais dificuldade em lidar com frustrações.

Estudos indicam que, quanto maior o tempo de tela, piores tendem a ser os resultados escolares. A exposição prolongada atrasa o desenvolvimento da linguagem e das habilidades sociais, além de prejudicar o sono e a saúde mental. É importante lembrar que o equilíbrio é possível: a tecnologia pode ser aliada do aprendizado quando usada com orientação, limites e propósito.

Vivemos também uma mudança cultural. As crianças de hoje nasceram em um mundo mais protegido e, ao mesmo tempo, mais restrito. Brincar na rua se tornou raro. Essa proteção excessiva, somada ao convívio virtual, contribui para altos índices de ansiedade e dependência emocional dos aparelhos.

A comunicação nunca foi tão fácil, mas paradoxalmente estamos mais distraídos. O que deveria ampliar o conhecimento tem, às vezes, nos tornado mais impacientes e dispersos. Vídeos curtos e mensagens instantâneas fragmentam a atenção e reduzem o tempo de reflexão. Ainda assim, é possível aproveitar o melhor desse universo: aprender, criar e se conectar de forma saudável.

Outro desafio é o sono infantil. Pesquisas mostram que crianças e jovens dormem cada vez menos. Mas pense: fica difícil dormir depois de ficar uma hora diante de uma tela brilhante e cheia de luz. É assustador saber que, segundo alguns estudiosos, a criança de 2 anos passa quase três horas por dia diante do celular, a de 8 passa cerca de cinco horas diárias e os adolescentes mais de 7 horas. Certamente, ficar exposto a telas por tempo demais danifica o cérebro, prejudica o sono, interfere na aquisição da linguagem, prejudica a concentração. As crianças não têm a presença física dos amigos, não brincam tempo suficiente ao ar livre.

Somam-se a isso as deficiências da educação tradicional, que ainda segue um modelo do século XIX. O Brasil investe três vezes menos que os países ricos em educação básica. E segundo o próprio Ministério da Educação, 56,4% dos alunos do 2ºAno do Ensino Fundamental I não sabem ler.

O problema não está apenas na escola, mas também no ambiente doméstico, que precisa resgatar o diálogo, o exemplo e o prazer de aprender.

A geração Alpha nasceu em um mundo sem fronteiras, repleto de possibilidades e descobertas. Se bem orientada, pode usar a tecnologia como ponte, não como prisão. Mas é preciso presença, exemplo e consciência dos adultos — pais, professores e cuidadores — para que as telas não substituam o afeto, a conversa e o olhar.

E, para finalizar, nesse ano de 2025, em muitos lares, estão chegando os bebês da geração BETA que nascerão de 2025 a 2039. É a geração que, segundo as previsões, vai crescer num mundo onde a IA vai ser sua mãe, seu pai, seu professor e seu amor. Cabe a nós, adultos de hoje, preparar esse caminho com sabedoria e humanidade. Estejamos preparados!

“O que houve com ele” é o primeiro clipe do álbum “Maurício Ricardo e A Máquina”, que reúne 12 poemas de Maurício Ricardo musicados com ajuda da I.A. generativa. Uma obra que mistura arte, tecnologia e reflexão sobre o nosso mundo digital.

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