
Quando pensamos em maternar, a primeira imagem que nos vem à mente costuma ser a de uma mãe com seu filho nos braços, presentes nesse plano físico que é o mundo. Mas maternar é muito mais do que isso. É um sentimento que transcende a ausência, que existe mesmo quando aquele que amamos não está mais aqui.
Há mães que carregam esse amor de um jeito que poucos enxergam. São mães que perderam seus filhos, que convivem com um luto duradouro, que não segue a lógica e nem a compreensão. E ainda assim, continuam maternando.
O luto que ninguém vê
Perder um filho antes mesmo de tê-lo nos braços é uma dor que pouquíssimas palavras conseguem alcançar. É um luto que o mundo muitas vezes não vê, não nomeia, não reconhece. No caso das perdas gestacionais, esse luto é ainda mais invisibilizado. São mães que guardam consigo a lembrança de cada semana de gestação, dos movimentos do bebê, de cada sonho tecido com carinho antes mesmo do primeiro sorriso.
Segundo dados publicados em 2025 no Brazilian Journal of Health Review, o aborto espontâneo afeta entre 10 e 15% de todas as gestações clinicamente diagnosticadas no Brasil, sendo acompanhado por um processo de luto materno que é constantemente subestimado pela sociedade.
Os números mostram uma realidade que precisamos encarar com mais humanidade. Somente no ano de 2024, o Brasil registrou 22.919 mortes fetais e quase 20 mil óbitos neonatais, segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Entre 2020 e 2023, foram mais de 172 mil óbitos fetais registrados em nosso país. Por trás de cada um desses números, há uma mãe. Uma mulher que desejava, que planejava e que sonhava.
Em resposta a essa realidade, o Brasil deu um passo importante em 2025, quando foi sancionada a Lei de Humanização do Luto Materno e Parental, que garante direitos como o registro do nome do bebê, a emissão de certidão de óbito, o atendimento psicológico e espaços reservados nos hospitais para mães em luto. É um reconhecimento tardio, mas necessário, de que essas dores existem e merecem acolhimento.
O que significa maternar quando o filho está ausente
Maternar significa amar de um jeito que não precisa de presença física para existir. Significa falar o nome dos filhos em voz alta mesmo que as pessoas à sua volta evitem dizê-lo. Significa celebrar cada aniversário que não aconteceu, cada conquista que só existe na imaginação de uma mãe que nunca parou de amar.
Maternar é cuidar do próximo com a ternura de quem já aprendeu o tamanho da perda. É olhar para outra mãe em luto e reconhecer nela o mesmo amor que há dentro de si. É ter dentro do peito um sentimento tão grandioso que ele transborda para todos ao redor, mesmo quando a dor parece grande demais para caber.
São vários os sentidos e significados do ato de maternar, e muitos ainda não conseguem compreender isso. A sociedade tende a enxergar a maternidade como um pacote completo, com mãe, filho, brinquedos e primeiros passos. Quando a história não segue esse roteiro, a mãe fica sem lugar, sem espaço para a sua dor e sem permissão para se identificar como mãe. E isso é uma violência sutil, porém profunda.
O respeito que a mãe merece
Há uma crueldade muito específica em ignorar o luto de uma mãe. A sociedade costuma ditar regras sobre como e por quanto tempo se pode sentir falta de alguém. Faz perguntas que machucam, oferece conselhos que minimizam e muitas vezes, simplesmente muda de assunto como se a dor daquela mulher fosse inconveniente.
A mãe que perdeu um filho muitas vezes fica à mercê de julgamentos que ela não pediu. Ouve que precisa seguir em frente, que tem de ser forte e que o tempo cura tudo. Mas ninguém pergunta como ela seguirá em frente sem o filho que amou. Muitas vezes, nem pergunta o nome daquele bebê que existiu, mesmo que por pouco tempo. Ninguém reconhece que aquela criança foi real, sonhada e amada.
O respeito pela mãe que chora uma perda gestacional ou a partida de um filho começa com o simples ato de reconhecer a sua dor como legítima. Não existe dor pequena quando se trata de amor de mãe. Não existe prazo para esse luto se encerrar e não existe maneira certa ou errada de carregar essa saudade. Maternar é um verbo que não tem data de validade. Ele acontece todos os dias, de todos os jeitos, mesmo quando o filho não está mais presente.
Uma homenagem a todas as mães
Este artigo é uma homenagem a cada mulher que ama um filho que está ausente. A cada mãe que pensa no nome antes de dormir, que acende uma vela em datas que só ela sabe o peso de carregar. Independente da maneira como a maternidade chegou, o amor de mãe existe. Ele é real, válido e é o mais lindo do mundo.
Sou muito grata pelos meus anjos Miguel e Ariel, que não estão aqui comigo, mas preenchem minha alma e coração com sentimentos que não cabem em palavras. Eles me ensinam o tamanho do amor que sou capaz de sentir, e essa é uma dádiva que nenhuma perda pode tirar.
E este ano, meu coração se abre para receber Hugo, meu bebê arco-íris. Ele vem com um propósito muito especial nessa terra: ser filho, ser luz, ser a promessa de que o amor sempre encontra um caminho. Ele é esperado com tanto carinho e amor por todos que o aguardam, e sei que Miguel e Ariel também estão vibrando com a sua chegada, de onde estiverem.
Para todas as mães que estão lendo este texto com o coração apertado porque também reconhecem essa dor como sua: você não está sozinha. O seu amor é real. O seu filho existiu. E você é, e sempre será, mãe.