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Quem são os homens que agridem as mulheres?

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Isabella Lucas

Virou rotina entrar nas redes sociais ou sintonizar no jornal da TV e nos depararmos com notícias como: “mulher é espancada pelo ex companheiro”, “mulher é agredida e arrastada”, “mulher é morta pelo ex-marido”. Raramente, para não dizer nunca, vemos “homem agride/mata mulher”. Sempre uma voz passiva omitindo o sujeito da ação. Sempre o público sendo levado a ver o resultado, e não o responsável.

Em 2024, pelo menos 1492 mulheres foram vítimas de feminicídios, sendo que 97% delas foram assassinadas por homens. 8 em cada 10 foram vítimas de companheiros ou ex-companheiros e 74% dos feminicídios aconteceram dentro de casa.

Perdoem-me o excesso de números, mas as estatísticas são importantes pra nos mostrar quem são nossos agressores. Eles não são monstros. Não são serial killers de passagem pela cidade. Raramente cometeram algum outro crime. Não são desconhecidos nos esperando numa rua deserta. São nossos companheiros ou ex companheiros. São homens que trabalham, estudam, vão à igreja, são considerados “homens de bem” e, muitas vezes, admirados pela comunidade. Eles têm irmãs, mães e, não raramente, filhas. Mas isso não os impede de agredir mulheres.

Se são homens comuns e, muitas vezes, homens que amamos, por que nos agridem?

Segundo a policial civil Thaína Cardoso Melo, “a violência acontece normalmente quando a mulher resolve por um final no relacionamento”. Ou seja: quando o homem perde o controle sobre a mulher que, na sua cabeça, deve fazer o que ele quer. E se o controle vem da ideia de posse, fica claro que, para alguns homens, o fim da relação é vivido como perda de propriedade.

Mas se ao fim da relação o homem parte para a violência física, durante o relacionamento ele dá sinais da sua necessidade de controle. É o que chamamos de escalada da violência: começa com piadas que ridicularizam as mulheres, depois vem a desqualificação (“coisa de mulher”), o controle sobre roupas e amizades, o ciúme visto como prova de amor. Aí começa a invasão de privacidade (vasculhando suas redes), evolui pra agressão verbal, ameaça agressão física e então agride de fato.

Em cidades como Abaeté, a forma mais comum de violência registrada ainda é a ameaça – muitas vezes o primeiro passo de uma escalada.

Todas essas formas de violência aparecem quando a mulher rompe com a expectativa de submissão – ao decidir trabalhar, estudar, se vestir como quer ou encerrar a relação.

E a forma como a sociedade reage a esse comportamento violento é também um combustível que retroalimenta o ciclo da violência doméstica. Quando acontece um feminicídio, todos se surpreendem. Mas esse homem não surge do nada. Ele é formado em um ambiente que ri de piadas machistas, que silencia diante da violência e que ainda repete que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. É nesse contexto que o controle se normaliza – e a violência deixa de ser exceção.

Mulheres, é muito importante estarmos atentas a esses sinais que, infelizmente, a sociedade tende a minimizar. Cada um deles é uma bandeira vermelha que indica comportamento controlador e potencialmente agressivo. É importante não normalizarmos a cultura da violência.

Sabemos que em cidades pequenas como Abaeté, onde todos se conhecem, o medo da exposição, da vergonha e das consequências para a família ainda silencia muitas mulheres. Mas só com coragem é possível quebrar o ciclo da violência, seja contra nós mesmas, ou contra a próxima – porque o agressor não deixa de ser agressor.

Mas mais do que ficarmos atentas, é necessário que os homens se engajem nessa luta. “Ah, mas eu não bato”, então pare de perguntar “mas o que ela fez pra merecer isso?”. “Não, mas eu não julgo as vítimas”. Então pare de rir de piadas machistas e misóginas, pare de dizer que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Denuncie um agressor. Não desacredite uma vítima. Ensine seus filhos a respeitarem as mulheres. Porque não é responsabilidade das mulheres viver tentando evitar a violência.

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