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Tecendo o feminino

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Carolina Esselin

“Qual é a maior lição que uma mulher pode aprender?

Que desde o primeiro dia, ela sempre teve tudo o que precisa dentro de si mesma.
Foi o mundo que a convenceu que ela não tinha.”. Rupi Kaur

Mais uma vez, precisamos retomar a questão sobre os efeitos da cultura na psique das mulheres. O índice de depressão e ansiedade entre as mulheres é o dobro do que se apresenta entre os homens. Enquanto psicóloga, uma das minhas funções é contribuir na desconstrução das opressões simbólicas e psicológicas e no resgate da autoestima e da segurança emocional das mulheres.

De acordo com a pesquisadora Riane Eisler, a ideia de que as mulheres devem ser doces e cuidadoras, por exemplo, impedem o reconhecimento do sentimento de raiva, o que ocasiona sentimentos de culpa, sofrimento no corpo, enxaquecas e outras somatizações. Dificuldades na criação de filhos do sexo masculino é outra consequência da repressão de sentimentos dessa ordem. Mas, em vez de simplesmente acusar a cultura ou os homens, o caminho mais promissor para a libertação dos estereótipos está nas mãos das próprias mulheres.

A clínica psicanalítica, bem como a representação do feminino por grandes artistas, como Madonna e Cindy Sherman, mostram como a censura do feminino faz com que a feminilidade seja projetada para fora, como se pertencesse apenas a outra mulher, à mãe, à modelo de capa de revista, à mulher que mobiliza o ciúme. Tal situação seria responsável pela dura pergunta que muito se repete no divã: “Sou eu uma mulher?” Nesse ponto, interrogamos a dificuldade que muitas mulheres têm de se reconhecerem como detentoras desse feminino que tanto buscam em outras mulheres e no olhar masculino.

Se a cultura associa o feminino à doçura sem limites, à impotência da razão, à performance materna ou sexual, etc, como seria possível se identificar? Qual o preço pago para se encaixar? Se para ser mulher fosse preciso se encaixar nesses papéis, seria plenamente compreensível que o feminino fosse projetado para fora de si como algo impossível de se apropriar. É por isso também que repensar o significado de ser mulher, retirando essa carga que lhe foi colocada pela cultura, pode contribuir para a integração subjetiva e um ganho de bem-estar nas relações e consigo mesma.

Para a nossa esperança, temos a contribuição do feminismo, que anda esquecido. Simone de Beauvoir, por exemplo, nos alertou que “não se nasce mulher. Torna-se mulher”. Ou seja, o significado de ser uma mulher não está dado de antemão, a feminilidade é construída de modo singular e único por cada mulher. Não se trata de uma essência feminina supostamente compartilhada por todas elas e muito menos um ideal a ser alcançado. Ao contrário, o feminino parece estar muito mais na desconstrução de ideias e de ideais, em um processo de vir-a-ser, de descoberta, de transformação e auto-composição.

Um dos temas mais importantes a serem interrogados é a transmissão, entre as gerações e através da cultura, dos papéis atribuídos às mulheres. Afinal, o que se transmite pelo olhar da mãe e por seus conselhos a sua filha no que diz respeito ao ser feminino? Como adquirimos a ideia de que ser agressivo é coisa de homem e servir e cuidar é coisa de mulher?

O caminho que a psicóloga Camila Ferreira e eu elaboramos para facilitar o processo de emancipação de mulheres partiu do reconhecimento da importância do processo grupal, do autoconhecimento e da escrita. Camila realizou sua pesquisa de doutorado, em Psicanálise, desdobrando o livro autobiográfico escrito pela portuguesa Isabela Figueiredo, que aborda suas memórias de infância. Por minha vez, também realizei uma pesquisa de mestrado sobre o escritor irlandês James Joyce, que segundo a psicanálise lacaniana, teria encontrado na escrita uma defesa contra uma severa desorientação psicológica. Assim, construímos, juntas, um programa de autoconhecimento para mulheres que inclui a escrita como ferramenta suplementar. No último encontro de cada ciclo, propomos também a experimentação presencial da dança através da condução de Camila Ferreira. Abriremos o programa que é composto por três ciclos de workshops, dia 10/11, às 19h, online. Nesse dia, a participação será gratuita e aberta a mulheres que tenham interesse na proposta. Vamos responder dúvidas, conversar um pouco e acolher as participantes. Estamos preparando tudo com muito cuidado para que as mulheres possam se beneficiar da experiência da melhor forma possível. Estou conversando por telefone com quem deseja mais informações. Meu telefone de contato é 31988588272.

Carolina Esselin é psicóloga pela UFMG desde 2005 (CRP 04-25060), mestre em Psicologia (2010), mestre em Estudos Literários (2017), poeta, professora universitária.

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