Como Adriano Couto construiu um grupo empresarial e voltou a investir na cidade onde começou

Aos oito anos de idade, ele cruzava Abaeté de ponta a ponta com um carrinho de picolés. Filho de Anibal Couto e Maria, da Sorveteria Mok Bom, o menino Adriano percorria ruas, bares e a rodoviária ajudando a família. Entre um ponto de venda e outro, nas ruas quentes da Cidade Menina, ele nem de longe imaginava que, décadas depois, construiria um grupo empresarial que movimentaria milhões, com perspectivas de impulsionar uma nova fase de desenvolvimento em Abaeté.
Da venda de picolés, Adriano passou a balconista na Papelaria ABC e, aos 17 anos, viveu uma experiência que marcaria sua forma de enxergar o mundo. Durante cerca de um ano, trabalhou na Vila Vicentina, ajudando nos cuidados com os idosos. Dava banho, acompanhava a rotina, convivia com histórias marcadas pelo tempo e pela fragilidade. “Aquilo foi uma escola pra mim”, relembra.
Mas, embora o contato com aquela realidade trouxesse uma consciência precoce sobre responsabilidade e empatia, a juventude seguia seu curso. Na adolescência, Adriano não era exatamente o exemplo que viria a se tornar. “Eu era bagunceiro”, admite. Nada que comprometesse sua formação, mas o suficiente para gerar conflitos, preocupações e influenciar diretamente um dos movimentos mais importantes da sua vida.
Foi nesse período que Cidinha, sua namorada, decidiu se mudar para Campinas, para a casa da irmã. E a decisão dela provocou nele uma resposta imediata. Aos 18 anos, movido por um impulso que mistura amor e coragem, sem avisar ninguém, ele saiu de Abaeté rumo à Cidade das Andorinhas. “Peguei um ônibus e fui. De mala e cuia”, recorda.
A cena poderia ser roteiro de cinema: Adriano chega de surpresa, toca o interfone e ela, assustada, não acredita no que vê. Mais do que um gesto romântico, foi o início de uma parceria que atravessaria todas as fases da vida. “Ela é meu tudo”, resume.

Os anos que moldaram o homem
Em Campinas, a realidade foi dura. Um assalto violento marcou o início dessa fase. Adriano conta que, ao voltar para casa, um barracão alugado no Sumaré, foi agredido, teve a mala de ferramentas roubada e acabou perdendo o primeiro emprego, em uma empresa de PABX.
Na sequência, enfrentou uma rotina extrema. Acordava às quatro da manhã, caminhava cerca de oito quilômetros até o trabalho, no Macro, onde passava o dia inteiro em pé cortando bacalhau. Depois, voltava a pé para casa. “Era chegar, deitar e dormir, pra acordar quatro horas do outro dia. Até eu conseguir comprar uma bicicleta”, relata. Durante meses, viveu praticamente de arroz e ovo.
Foi nesse período que construiu disciplina. E também quando passou a morar com Cidinha. O início da vida em comum não foi fácil. Enquanto ele enfrentava longas caminhadas, ela também acordava às quatro da manhã e pegava dois ônibus para trabalhar em uma padaria. “Passamos um ano no perrengue. Havia dias em que não tínhamos um real. Quando conseguíamos comprar um pedaço de carne, fazíamos uma festa em casa. Foram tempos difíceis, mas gratificantes”, reconhece. “Ensinaram que, com fé e disposição, a gente consegue atingir os objetivos.”
Em busca de novas oportunidades, Adriano fez um curso profissionalizante e se tornou vigilante armado. Nos primeiros dias, enfrentou situações de risco real, em regiões marcadas pela violência. Tiros, confrontos e decisões rápidas passaram a fazer parte da rotina.
Em 1999, após o primeiro AVC do pai, viveu um dos momentos mais marcantes da sua vida. “Fiquei muito abalado. Apesar dos atritos na adolescência, meu pai sempre foi o homem mais importante da minha vida”, diz. Em oração, fez um pedido: mais tempo. “Queria me aproximar e dar orgulho a ele antes de partir.”
Segundo Adriano, esse tempo veio. E a experiência fortaleceu sua fé e ajudou a orientar seus próximos passos.

O nascimento de um grande negócio
Em 2007, já com mais estabilidade, Adriano e Cidinha decidiram voltar para Minas Gerais. “Comecei como MEI, trabalhando com gestão de pessoas. Depois virei microempresa, ME, e, com as licitações, nos tornamos Ltda”, conta.
Assim, em 2010, nasceu a CSete Telecomunicações. O início foi simples, com faturamento mensal de cerca de R$ 5 mil. Mas o crescimento veio com estratégia. A empresa passou a atuar na implantação e manutenção de redes, construção de infraestrutura, lançamento de fibra óptica e soluções tecnológicas.
Com o tempo, ampliou a atuação para contratos mais robustos, especialmente no setor de energia, atendendo grandes empresas e projetos de alta complexidade.
Hoje, a CSete conta com mais de cem colaboradores, estrutura própria e atuação em diferentes regiões, sustentando dezenas de famílias e movimentando milhões mensalmente. “Você sai de casa pra fazer bem feito. Porque carrega o seu nome junto”, afirma.

Investir onde tudo começou
Nos últimos anos, os investimentos passaram a ganhar forma também em Abaeté, movimento que tem feito com que Adriano seja visto por muitos como uma das apostas para a revitalização econômica da cidade e da região.
O ponto de partida foi o CSete Clube de Tiro, que evoluiu para um centro de treinamento. A partir dele, surgiram iniciativas voltadas à segurança pública, como a capacitação de forças policiais e a implantação de sistemas de monitoramento por câmeras em pontos estratégicos do município.
Mas os projetos vão além.
No Haras Sete Lagos, onde constrói sua futura residência, o empresário investe na criação da raça frisian, com foco em genética, manejo e estrutura de alto padrão.
Entre os projetos com impacto social, está a implantação de um centro de equoterapia, voltado ao atendimento terapêutico e inclusão.
No agro, desenvolve um modelo integrado de produção de carne, que começa na seleção genética, passa por processos de inseminação e criação e avança para a estruturação de um sistema completo, com a intenção de, futuramente, operar com frigorífico próprio. A proposta é controlar toda a cadeia produtiva, garantindo qualidade e preço acessível ao consumidor.
Paralelamente, já atua na comercialização: adquire animais de produtores da região, acompanha o processo industrial e prepara a carne para o consumo final.
Na área da comunicação, aposta na criação de uma emissora regional via streaming, com programação voltada para Minas Gerais. A proposta é valorizar conteúdos locais, com jornalismo, esporte, entretenimento e produção feita por profissionais da própria região.
Os investimentos seguem uma lógica clara: diversificação, geração de empregos e fortalecimento da economia local.
Mas nenhuma conquista se compara à mais transformadora. Adriano e Cidinha decidiram ser pais aos 43 anos. Foram anos de tentativa, espera e fé.
A filha, Manuela, nasceu quando ele tinha 46 anos. “A Manu é a concretização do homem que eu sou”, diz.
Hoje, cada decisão passa por um novo filtro: o exemplo. “O empreendedor continua”, afirma. “Mas agora com uma responsabilidade maior.”
Ao olhar para trás, do menino com a caixa de picolés ao empresário que lidera um grupo de milhões, uma certeza se impõe: essa história nunca foi individual. Foi construída em parceria. Com trabalho. Com fé. E, acima de tudo, com a presença constante de Cidinha. Mais do que ao lado. Junto.
E é uma história que, como ele gosta de dizer, “está só começando. Estão preparados?”
